Conto: Não há nada depois da curva

Após um dia turbulento, repleto de aborrecimentos, falas ásperas e olhares arremessados como lanças na direção da caça que foge apavorada, entrei no carro, puxei a porta com violência ignorando as recomendações dadas aos meus filhos, respirei fundo, espremendo o volante transferindo-lhe boa parte da cólera provada. Enfim, rumei para meu canto de sossego anelando que os sentimentos ignóbeis se deixassem abandonados pelo caminho.

Ansiava chegar logo em casa para, pelo menos, enebriar-me do aroma do jantar que estaria esperando-me, se não sobejasse nenhum resquício de outras vontades. Todavia, minha fome verdadeira não poderia ser saciada via boca, porque mais almejava os sorrisos que receberia ao abrir o portão, os abraços e beijos desproporcionais, e ainda, as narrações atropeladas de tudo que acontecera naquela semana que se passou sem minha presença. Aqueles singelos e autênticos gestos eram dotados de poderes curativos de todo tipo de estresse, e eu tinha cada um deles em porção dobrada, ao menos.

Enquanto esforçava-me para manter o olhar vidrado no trajeto, fixo nas faixas brancas e amarelas que iam e viam, mas também escondendo-o das luzes ofuscantes projetadas da direção oposta, pingava, sem cessar, nas belas imagens sensoriais que projetava para meu futuro bem próximo, as discussões banais e improdutivas daquela semana atordoada de reuniões no trabalho. 

A exaustão cavalgava em mim sem dó: chicoteava, esporeava e ainda berrava nos meus ouvidos. (Estar impossibilitado de golpear seu oponente, fere tão quanto absorver seus golpes). Desejei abandonar a direção imaginando que o capotamento seria suave o bastante e, finalmente, eu poderia descansar à beira da rodovia, desmaiado por dor lancinante de algum órgão perfurado. Fui resgatado do meu delírio por um o susto esbofeteando-me a cara usando a buzina alta de um caminhão como mão, cujo motorista notou estar eu achegando perigosamente na sua rota.

Dei de ombros para o exagerado. Acelerei mais. Ainda gastaria cerca de três horas do meu dia para chegar ao lar. De antemão degustava os meus pensamentos.

O sono, desprezando minhas pretensões, se aliou às lembranças das aulas de direção defensiva para reproduzir, repetidamente, nas bocas que falam em nossas mentes, frases insinuando que eu deveria estacionar em um local seguro e dormir um pouco. Eu argumentava com elas: “só mais três horas”. E elas voltavam a agulha para o início do disco. O bate-boca continuou até ser interrompido, providencialmente, pelas últimas falas da reunião enfadonha que me fez desejar a morte dos meus colegas. Falas que suplantavam, por desadormecer o ódio e seus companheiros em mim, qualquer outras que tendiam à manutenção da minha vida, ou tão somente do meu bem estar. 

Dei três tapas na cara com a minha própria mão direita, usando força moderada. Peguei o resto de água que havia na garrafinha para molhar o rosto. Sintonizei uma rádio que tocava músicas modernas horríveis, justamente para despertar em mim a mais pura e fidedigna irritação. Música Trance... pensei: com certeza manter-me-ia acordado, porque parecia muito com os ruídos de ferramentas que ouvia na construção ao lado da minha casa, que me despertavam irritadiço, e desejando ardentemente a surdez.

Observei uma placa de curva fechada à direita, uma seta com um ângulo de noventa graus, brilhante como um baú lotado de moedas de ouro. Do meu lado esquerdo, faixa dupla. Rodovia sem acostamento. Noite sem lua. Olhei o velocímetro... minha velocidade estava bem acima do permitido: 160 km. Tirei o pé do acelerador segurando firme o volante (mas desprendido daquele sentimento violento narrado no início, porque naquela hora inundava-me um temor racional providente) ao perceber que a traseira do veículo anunciava estar superando o atrito dos pneus com o asfalto, e desejava arremessa-lo para fora da estrada.

Na curva, vi quatro pontos de luz intensificando seu brilho ofuscante em minha direção. Estupidamente arregalei os olhos e aproximei-me mais do para-brisas. O coração superou depressa a velocidade do veículo. Constatei, antes de piscar, que um imprudente motorista ultrapassava em faixa contínua. 

Fechei os olhos num impulso primitivo e instintivo de defesa. 

Os primeiros sons ouvidos, dos pneus derrapando, berraram agudos em meus ouvidos coagindo meus olhos a abrirem-se novamente!

Pausadamente vislumbrei: o motorista imprudente sem as mãos no volante porque protegia o rosto; ao seu lado uma mulher aterrorizada segurava sua barriga, proporcionado uma camada extra de proteção à sua prole; no banco traseiro uma criança dormia inocentemente. (Invejei-a!). 

Pensei nos meus filhos. Eles não ouviriam o meu abrir de portão característico naquela noite. Não correriam em minha direção para me banhar de abraços e beijos. E eu não os beijaria após cobri-los preparando-os para dormir. Não poderiam relatar as aventuras vividas na última semana, nem lembrar do quão próximo estava do dia dos presentes prometidos. Eles alternariam as espiadelas na janela a qualquer carro que passasse pela rua. Do caçula ver-se-ia apenas os pequenos olhinhos e o cocuruto no vão. Questionariam sua mãe, a cada giro do ponteiro mais fininho pelo número 12, quando papai chegaria. Ela, ocultando a preocupação, responderia que “logo, logo”, tentando disfarçar a expressão desolada, que tornar-se-ia mais nítida pelo decorrer dos instantes, dificultando seu engodo. Eu não comeria o jantar preparado com tanta dedicação. Não envolveria minha esposa em meus braços e ela não me enlaçaria nos seus. A noite que elaborei termos juntos como uma só carne, não existiria. Sua rizada contagiante não inebriar-me-ia mais. Eu não seria encurralado num canto da cama nem mesmo me zangaria com as suas manias.

Há uma semana eu inalei seu perfume pela última vez e comtemplei seus olhos tristonhos despedirem-se arrependidos, pressentindo que aquele tchau seria um adeus sem-par. Ainda tive tempo de pensar que não ligava para minha mãe a uns dois meses, mesmo sabendo que ela estava deprimida pelo falecimento do meu pai. Eu nunca mais poderia ser abençoado pelos seus conselhos. Nem poderia passar os finais de tarde conversando sobre tempos passados, tomando café e comendo biscoitos.

Ouvi um estrondo. Os veículos se chocaram. Nossos corpos foram arremessados como sacos de carne contra todo aquele plástico, borracha, metal e vidro. Os airbag do outro veículo se abriram escondendo de mim as expressões faciais incomunicáveis emergindo fronte a morte. Meu carro não possuía aquele dispositivo de segurança... pude ver vindo em minha direção, calmamente, uma barra de aço quebrada que me trespassou acima da cintura, tornando-me uma peça retorcida do veículo. Senti minha pele rasgar sem resistência, mas não senti dor, porque o pavor, mesquinho que era, trancafiou minha alma, para possuí-la como escrava. Os estilhaços do para-brisa penetraram minha pele como se eu fosse a Lua exposta a uma chuva de meteoros. 

Meu corpo foi arremessado drasticamente para trás quando os carros giraram na pista. Perdi de vista o outro veículo. Percebi-me girando em direções aleatórias, como que em um carrossel administrado por uma criança ignorante sobre as funções dos seus controles, até que aquela massa retorcida não identificável topou um monte de terra e, então, acalmou-se.

Escureceu...

Pela fresta de um dos olhos, observei turvado que havia fogo em meu veículo, muita fumaça, e um cheiro insuportável de óleo, gasolina e borracha queimada. Tentei erguer a pálpebra direita, mas estava aderida a minha face com uma pequena placa de metal. Pelejei para movimentar os lábios, pedir socorro, mas não sentia meu maxilar no lugar comum, pois parecia dependurado. Vi com alívio alguém correndo em minha direção com um extintor nas mãos. O fogo se foi. Meu salvador se aproximou, fixando seus olhos no meu, externado nítida incredulidade fez o sinal da cruz e abandonou-me.

Fiquei preocupado com a família do outro veículo, mas não os conseguia ver a distância. Deixei as preocupações de lado. Recordei que aquela era minha família há uns sete anos atrás, quando eu, como joão-bobo, insisti em voltar para casa de madrugada após uma festa de casamento, opondo-me às vontades da minha esposa e minha querida sogra. Sobrevivemos com vários arranhões e algumas sequelas emocionais que nos impediram de viajar por algum tempo considerável e também porque fui sentenciado a uma pena de anos pelas lesões e prejuízos decorrentes do acidente.

Escureceu...

Por uma fresta menor ainda notei várias sirenes. Um socorrista veio em minha direção. Tocou meu pulso várias vezes. Colocou os dedos em minha carótida. Limpou meu tórax grudento de sangue, antes de ajeitar o estetoscópio. Aguardou alguns minutos. Fez tudo novamente. Deu de costas e gritou para seu parceiro: “Esse aqui já era!”.

Ainda restavam cerca de três horas para chegar em casa.

Agora deveria principiar a parte da história onde eu acordo no sofá assustado com a experiência terrificante sonhada, corro até meus familiares, abraço-os, beijo-os, e faço tudo que deveríamos fazer todos os dias, mas deixamos para mais tarde. Mas a vida não é como a sétima arte nos moldes estadunidense. Sinto desapontá-lo.

Eu morri!

Mas eu vivi quase constantemente direito, às vezes errei me desviando para à esquerda. Eu vivi pensando na minha morte o tempo todo. Descobri ainda no alvorecer da juventude que só a morte sustentava alguma explicação para o sentido à vida. Por saber da morte, eu amei quando deveria amar; ajudei quando poderia ajudar; sorri quando precisava sorrir, mas também chorei quando precisava chorar. Tive atitudes que não deveria ter tido, quando esqueci que a morte poderia buscar-me nos instantes mais insignificantes ou nos mais apreciáveis. Nestes átimos, logo recobrei a consciência e voltei a colocar a morte no seu altar. Errei em repetidas ocasiões, e se pudesse viver de novo, erraria erros distintos, mas erraria. 

Fechei a fresta pela última vez.

Lembrei-me da cruz e do ladrão presenteado com a melhor de todas as promessas que se pode receber em vida.

Escureceu...

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